Paixão de juventude

Sofia observava os carros passando na movimentada Rua Mário Ribeiro. Pela janela da sala reparava nos transeuntes indo de um lado para o outro. Passava as tardes sozinha em casa, contemplando o cotidiano imutável.Todos os dias era isso: ficava à espera de Roberto, seu marido. E nessa eterna espera, nada preenchia sua busca incessante por entretenimento: TV a cabo com 500 canais, aula de Yoga com seu professor particular, o cheesecake da doceria da esquina, passeio de carro pela orla com seu motorista particular.

Depois dos 30 anos, os dilemas existenciais da juventude se tornam mais concretos. Os sonhos se transformam em contas a pagar e compromissos. As rugas e pelancas em áreas estratégicas tornam perceptíveis a passagem do tempo e a ideia da morte se faz mais presente. Mas as marcas físicas não eram o que mais incomodava Sofia em envelhecer. Sentia falta mesmo é da sensação de liberdade que outrora perpetuara em sua vida. E essa liberdade tinha nome: Marcos.

Marcos foi o amor de juventude de Sofia. Daqueles inesquecíveis, que arrepiam só de lembrar. Esse deve ser o real sentido da palavra “sinestesia”, pensou. Se conheceram na faculdade de Letras, aos 25 anos de idade. Acabaram terminando o namoro. Ele se formou e virou professor. Sofia largou e se casou com Roberto. Parou de trabalhar e desde então passou a viver na sombra de seu marido. O casamento, que nunca foi bom, nos últimos anos se converteu em total insatisfação por parte de Sofia.

Roberto, marido de Sofia, até fora charmoso quando mais novo, mas o tempo não lhe caiu nem um pouco bem. O ditado “homens são como vinho, ficam melhores com o tempo” não tinha a menor veracidade no caso dele. Uma pança burguesa inflava as camisas sociais Lacoste que usava todos os dias, repetidamente, cor após cor. A clareira capilar no alto da cabeça lhe dava um ar de desleixo.

Se com o tempo vem a experiência, Roberto não conseguiu assimilar nada que os anos puderam lhe oferecer. Sofia entendia que o casamento não era um mar de rosas para nenhum dos dois, mas já que ficava enfurnada naquele apartamento-mausoléu (só saindo para frequentar modorrentos eventos sociais da empresa de seu marido), ela achava que merecia ao menos ser comida dignamente. Nunca sentiu um desejo real por seu marido como sentira por Marcos. O sexo com Roberto era nada mais que uma penetração vagarosa de alguns minutos, em que este se regozijava, gozava, tirava o pau fino de dentro, virava pro lado e roncava como um porco (o que ia além das semelhanças físicas).

Sofia não se sentia mulher. Era um mero objeto decorativo em seu próprio lar. O sexo era apenas uma lembrança das convenções matrimoniais, pois não sentia nenhum prazer em transar com Roberto. Não se sentia desejada nem necessária, mas sim desprezada, posta de lado. Então fazia questão de se masturbar escandalosamente ao lado da bola de banha de seu marido. Gemia com prazer, fazendo questão de expressar sua revolta com aquele casamento deprimente em que vivia. Tinha vontade de humilhar Roberto, mas como não tinha coragem de fazer isso com as palavras, expressava se tocando. No entanto, Roberto nunca acordava com os grunhidos de sua mulher, e Sofia nunca tinha sua vingança revelada. A masturbação acabava sendo uma válvula de escape. Aquelas contrações vaginais faziam valer o dia.

Costumava levantar da cama de madrugada para chorar às escondidas no banheiro do quarto de hóspedes. Se deprimia pensando em como seria sua vida se não tivesse escutado os conselhos de sua mãe. “O que esse Marcos pode te oferecer? Professor de Literatura em escola municipal, cheio de sonhos e nenhum futuro. Você tem que pensar no que é melhor pra sua vida. Você tem que cair na realidade e entender que esse Marcos não pode te dar estabilidade. Esse homem não está ao seu nível, minha filha”. Sentia muita raiva da mãe sempre que se lembrava disso.

Enquanto tomava a garrafa de vodka que escondia no armário debaixo da pia do banheiro, Sofia revivia as memórias que tinha com Marcos. Os dois se conheceram na aula de Estudos Culturais. O que os uniu foi o livro Indústria Cultural e Sociedade de Theodor Adorno, que Sofia emprestou para Marcos tirar xerox. Quando devolveu o exemplar na semana seguinte, aproveitou pra chamar Sofia pra sair.

Sofia se lembrava vividamente da primeira vez que transaram. Depois de irem ao cinema, Marcos parou um táxi  e foram direto pro motel. Sofia entrou na escuridão do quarto, e logo atrás Marcos acendeu a luz. Podia ver a cama de casal com lençóis brancos logo a sua frente. Sofia nunca tinha feito isso, sexo no primeiro encontro. Apesar do nervosismo de parecer inexperiente, deixou se levar. O tesão incontrolável a deixava irracional.

Marcos chegou por trás e começou a beijar seu pescoço. Suas mãos grandes acariciavam os seios fartos levemente enquanto sua virilha era pressionada contra a bunda de Sofia. Podia sentir o volume crescente dentro da calça jeans de Marcos. Ela se virou e eles se beijaram demoradamente. As línguas se roçavam em movimentos alternados entre a agressividade e a leveza. As bocas se fechavam e abriam, dando abertura para beijos profundos. Os dentes mordiam os lábios. Suas mãos passeavam por todas a parte. Apertavam, agarravam, unhavam, acariciavam. Seus corpos eram territórios um do outro. Não precisavam de um mapa para se encontrarem.

Sofia tirou a blusa de Marcos e roçou os lábios vermelhos em seu peito nu. Ao mesmo tempo, ele levou as mãos às costas dela e abriu o zíper de seu vestido, que foi ao chão. Sofia não gostava de usar sutiã, então seus seios redondos estavam à mostra. Marcos levou sua boca aos mamilos e se pôs a chupá-los enquanto acariciava a boceta mais embaixo, que começava a molhar de leve a calcinha preta rendada.

Em pouco tempo a calça de Marcos havia sido tirada e atirada para o canto do quarto. Sofia começou a alisar o pau ereto por cima da cueca. Ele juntou sua virilha à de Sofia e a levou em direção à cama, atirando-a lá. De pé, tirou a cueca. Aquela era uma bela visão. Nunca tinha visto um pênis mais bonito em sua vida. Grande e grosso. Sem imperfeições.

Ele se aproximou e a puxou para a beira da cama pelos pés. Empurrou seus joelhos para os lados, abrindo suas pernas. Olhando nos olhos de Sofia, Marcos tirou sua calcinha e levou sua boca à boceta. Sua língua se alternava entre os lábios e o clitóris, fazendo movimentos circulares. Sofia gemia baixinho. Ele chupava com vontade, se deliciando durante o ato. Marcos lançava olhares furtivos para o rosto de Sofia, acompanhando sua demonstração de prazer. Ele introduziu seu dedo indicador na fenda molhada e começou a movimentá-lo para dentro e para fora.

Sofia puxou Marcos para a cama e deitou por cima dele. Começou a chupar seu pênis pulsante, passando a língua em volta da cabeça entumescida. Depois chupou de cima a baixo, movendo os lábios durante a fricção, sugando e chupando com força. Marcos gemia com vontade. Um boquete quando bem feito pode ser melhor do que uma penetração. Sofia batia uma punheta enquanto chupava o órgão.

Marcos não aguentava mais, precisava comer aquela boceta. Pegou a camisinha na mesinha ao lado e colocou em sua rola, olhando Sofia nua na cama à sua espera. Começou penetrando a bocetinha apertadinha por cima.De quatro foi um espetáculo. Marcos adorava ver o rabo feminino durante a penetração. Aquilo o excitava tremendamente.

Sofia tomou atitude e montou no caralho, sentindo ele expandindo sua flor. Sofia rebolava hipnoticamente, pra cima e pra baixo, apertando o pau de Marcos dentro de si. Ele não conseguia abrir os olhos de tanto prazer. Eles trocavam de posição rapidamente, sem se cansar. O encaixe era perfeito.

Os gemidos de Sofia se tornavam cada vez mais altos, à medida que o prazer ia atingindo o ápice. Marcos empurrou-a de volta para a posição inicial, segurando suas pernas uma para cada lado e a penetrou incessantemente. Seus quadris se mexiam cada vez mais rápido. Sua respiração ofegante e os gemidos curtos de sua voz grossa junto aos de Sofia preenchiam o ambiente.

Sofia sentia sua vagina se contraindo cada vez mais. Até que chegou aquele segundo dourado em que ela sabia que ia gozar. E gozou histericamente. Gemia e gemia e gemia. Se contorcia. Movia a cabeça de um lado para o outro. Marcos continuava a penetrá-la com afinco. Até que seu sexo também atingiu o limite e teve um orgasmo monstruoso. Sentiu a porra explodir de dentro do seu falo para a camisinha. Sofia estava tão excitada que dentro de sua  boceta praticamente não havia atrito. Era um mar de fluidos. O cheiro de sexo preenchia o quarto.

Marcos fazia Sofia se sentir uma mulher de verdade. Não havia nada comparável àquela sensação: nem a droga mais potente, nem a comida mais saborosa, nem mesmo ganhar na loteria. Nada chegava perto do que era sentir o pau grosso de Marcos dentro dela.

Jaziam na cama. Aquele momento mágico pós-foda. Encharcados de suor, olhos cerrados e depois o contemplar do teto branco. Suas almas estavam longe. Só restava seus corpos. Podiam passar o dia inteiro dentro daquele quarto, trepando incessantemente. Sofia havia encontrado o Sublime.

Algo interrompeu bruscamente as lembranças de Sofia.

– Sofia, cheguei.

Sofia sentia vontade de largar aquela vida. Queria deixar tudo pra trás: marido decrépito, apartamento no Leblon, roupas de boutique, os dois carros importados na garagem. Tudo aquilo era lixo comparado à felicidade que tinha ao lado de Marcos – quando conversavam, riam das mesmas bobagens, quando transavam como se aquela fosse a última foda de suas vidas.

Calou sua voz interior e deixou que as palavras robotizadas saíssem de sua boca:

– Como foi seu dia?

Só se sentia viva em suas memórias. Tudo o que desejava era uma última trepada com Marcos. Esse era seu último desejo enquanto vivesse. Isso que lhe dava razão pra suportar seu presente metodicamente insensato. Já estava escuro lá fora, e Sofia nem havia percebido.